Junho 2007


Música do Momento (12:33)

  • Charlie – Red Hot Chili Peppers

Imerso nas prolíferas trevas,
TROQUEI VOTOS DE REVOLUÇÃO
Uma flor diabólica que brota existente do amor
Pois eu não posso permitir obstáculos em meu caminho

O FUTURO QUE O FRUTO ME CONTOU
A cidade que será desprezada
O presente é distorcido pela escuridão
SONHOS, SE TORNAM IDEAIS

Porque? Eu sou um Messias maligno?
TODOS DESEJAM UM FINAL

Imerso nas prolíferas trevas,
nós trocamos votos de revolução
Uma flor diabólica que brota existente do amor
Pois não posso permitir obstáculos em meu caminho
Em nada do que está acontecendo
Um dia te mostrarei um céu resplandecente

Porque? Eu sou um Messias maligno?
TODOS SONHAM COM O PARAÍSO

Um dia te mostrarei um mundo de esplêndor!!!

Música do Momento (20:12)

  • Recado de Tempo – Isabella Taviani

BICHA EXPLODE NO AR!

André C S Masini

 

Certa vez, passando diante de uma banca de jornais na cidade de São Paulo, eu deparei com a seguinte manchete:

“Bicha explode no ar!”

Aquilo me pareceu tão assombroso, que não pude evitar me misturar ao bolo de pessoas paradas que liam os jornais expostos.

A manchete era um tablóide sensacionalista, já extinto, chamado Notícia Popular, mas bastavam duas linhas da matéria para entender que, obviamente, ninguém tinha “explodido no ar”.

Ao lado do NP, o sóbrio Estadão tratava do mesmo fato sob o título: “Cabeleireiro ameaça a tripulação em vôo comercial.” A matéria dizia: “Fulano de tal, 29 (…) sofreu uma crise nervosa no vôo tal e ameaçou perfurar uma lata de laquê, o que, segundo ele, causaria a explosão do avião (…) foi preso e depois liberado…”

À parte o incrível exemplo de como uma mesma história pode ser noticiada e contada de maneiras distintas, o caso me chamou a atenção por outro aspecto. Eu me pus a imaginar o que teria passado na cabeça das pessoas, fechadas numa lata com centenas de outras, a vários quilômetros de altura, assistindo alguém ameaçar explodir tudo com um spray de laquê…

Pareceu-me até engraçado… Até que, anos depois, eu passei por situação semelhante:

Eu tentava voltar de Fortaleza para São Paulo, por uma das recém criadas empresas aéreas econômicas…

Às duas da manhã, depois de cinco horas de atraso, as pessoas na fila para o embarque pareciam um grupo de refugiados de alguma catástrofe: abatidos, exaustos e com os nervos à flor da pele. Durante todo o tempo que esperáramos ali, não havíamos visto um único funcionário da companhia, até que de repente apareceu um homem com chapeuzinho de aviador (seria ele o próprio piloto?) e, sem dizer palavra, abriu a porta soltando a manada para disputar o embarque no tapa.

Apesar do corre-corre e do empurra-empurra, acabamos todos dentro do avião, ainda bufando de impaciência, mas ao menos aliviados por termos conseguido embarcar. Parecia que chegaríamos em casa…

A comissária (sim, havia uma) deu a famosa ordem para “colocar os encostos na posição vertical”… e foi aí que tudo começou:

De meu lugar, pude ver, pouco atrás, uma senhora lutando com a própria poltrona. Quando entendeu que a poltrona não pararia mesmo na vertical, ela ergueu-se, os olhos desvairados, e, com o avião já na pista, gritou para a comissária:

– Pare o avião! Eu vou procurar outra cadeira! Não decole até eu dar ordem!

(Para muitos, depois de cinco horas de espera, aquilo pareceu um insulto.)

Mas a comissária fingiu não ouvir, e o avião decolou, enquanto a mulher equilibrava-se pelo corredor e sumia em direção à calda.

Lá da frente nós não vimos nada. Mas quando a mulher chegou à única outra cadeira livre do avião, e descobriu que aquela também estava quebrada… ela entrou em pânico!

Ao pousarmos na escala em Recife, ela reapareceu discursando no corredor, ordenando a todos que descessem e exigindo que o avião ficasse no solo até que se fizesse uma revisão completa.

Aos trambolhões ela saiu, e eu ouvi um funcionário na escada explicando a ela que só haveria lugar em outro vôo daí a três semanas.

Torci para que a mulher não voltasse, mas, meia hora depois, quando a porta do avião se fechava, ela reapareceu, esgueirando-se pela última fresta. Continuou berrando sobre o risco daquele vôo. Os passageiros apenas resmungaram entre dentes.

Mas aí o avião se pôs em movimento, e, como por mágica, a mulher sentou-se e aquietou-se.

Tudo acabara bem: seguíamos a caminho de casa, e a mulher se calara.

Mas aí, surpreendentemente, os outros passageiros, aqueles inofensivos cidadãos que só queriam voltar pra casa, resolveram se manifestar.

O curioso é que, enquanto a mulher esbravejava ameaçadoramente, ninguém falara nada; mas, agora que se aquietara, passavam a zombar dela, com comentários em voz alta, risadinhas maldosas, e até ficando de joelhos na poltrona para encará-la. Um jovem advogado a ridicularizava em jargão jurídico, uma adolescente a fitava e ria, parecendo estar num êxtase de alegria.

A infeliz se encolhera na poltrona e ouvia a tudo quieta, como um animal assustado.

Não que eu achasse que ela não houvesse errado, muito menos que as pessoas não devam responder por seus atos. Acho até que, houvesse a cena se prolongado, teria sido correto que a tripulação a retirasse do avião. Mas algo muito diferente é alguém se valer de uma situação como essa para, covardemente, exercer seu sadismo.

Quando o avião pousou, um homem fez um incompreensível discurso, acusando-a entre outras coisas de ser “atéia”… e todos aplaudiram histericamente…

Já era demais!

A meu lado, um distinto senhor negro, que não dera um pio a viagem toda, balançou a cabeça em desaprovação.

De algum lugar, veio a voz de um jovem homossexual:

– Cheeega gente!

Mas não chegou.

Uma hora depois, quando a mulher pegava o táxi diante de mim, ainda havia um jovem zombando dela.

Naquela noite, a bicha explodira no ar!

A bicha da maldade humana, que serpenteia pelos subterrâneos e cloacas dos corações e espreita escondida no silêncio das trevas… apenas para vir à tona explosivamente, quando lhe dão oportunidade.

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